O início do mês (a pedalar)

Experiências

Regresso à escrita para este nosso projecto online, Gazeta Rides, com os dedos dos pés ainda a recuperarem, e a descongelarem, depois de 30 quilómetros a pedalar com um ambiente típico de inverno ao qual ainda não nos habituámos muito bem neste ano.

Quando o termómetro do nosso ciclocomputador marca 5,5º mas a temperatura sentida, seja pela chuva, pelo nevoeiro ou pelo vento, é negativa, tenho de concordar que as condições não são as melhores para uma volta de bicicleta. Porém, não diria que tenho alergia, mas a ideia de pedalar, de forma estática, num quarto ou numa garagem, mesmo que entretido a ver televisão, uma série ou um filme, não me atrai em nada.

É por isso que, depois de vestir o equipamento de inverno – meias cardadas, calças, camisola interior, camisola com fecho completo, casaco térmico e impermeável, boné, luvas, sapatos (desta vez sem capas para a chuva) capacete e óculos – e perder mais 10 minutos do que quando utilizo, apenas, roupa de verão, enfrento a intempérie.

Os primeiros minutos são de indecisão. Não sei muito bem quantos quilómetros fazer, para onde ir. Rolar pode ser apetecível para aumentar a distância. Mas o vento desmoraliza qualquer um. Além disso, há a chuva e o nevoeiro. Não convém, por isso, sair para muito longe. É melhor andar por perto, não mudemos de ideias e tenhamos de fazer a maratona para regressar a casa.

A coragem e a vontade ainda não subiram nos índices. Talvez um café ajude. A paragem torna-se obrigatória, com menos de um quilómetro percorrido. A conversa com um amigo que entretanto se junta faz-me acordar para o dia e para a volta. Uma mensagem de outro amigo diz que já tenho companhia para pedalar. Saímos os dois. Mal deixamos a cidade, ao fim de 500 metros, começa a chover com mais intensidade. Não há volta a dar. Agora, é aguentar. Percorremos as estradas mais ou menos planeadas após dois dedos de conversa no início. O relevo torna-se mais irregular. Faz-se melhor em dias de mau tempo. Porque as dificuldades e o seu nível não deixam de ser relativos.

O café é sempre uma boa desculpa para nova paragem. Já a caminho de casa. Desta vez são abatanados. Na prática, são cafés em chávena de meia de leite. Estômago e corpo quentes. Pés gelados. Não há volta a dar. A situação só se inverte com um banho de água quente, quando chegar a casa. O percurso faz-se devagar. Não há espaço para excessos ou maluquices. O tempo, com a chuva, o vento e o nevoeiro, já são risco suficiente.

Foram 30 quilómetros. Mais coisa, menos coisa. Foram 478 metros de acumulado positivo. Foi parte de uma manhã bem passada a desfrutar da região, da meteorologia difícil, da companhia. Entretanto as nuvens dissiparam-se e parou de chover. Mas isso agora pouco importa para quem já está em casa, mais quente, protegido de uma intempérie que levou os técnicos da meteorologia a lançarem alertas, sentado a escrever em frente ao computador.

Nota: Este texto foi escrito com On The Road Again (Live), de Jack Broadbent, como banda sonora.

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